Seminário: Segurança Internacional: Perspectivas Brasileiras
Presidente da Fundação Getúlio Vargas,
professor Carlos Ivan Simonsen Leal;
Ministro da Secretaria de Assuntos
Estratégicos,
embaixador Samuel Pinheiro Guimarães;
Senhor Secretário-Geral das Relações
Exteriores,
Embaixador Antonio Patriota;
Comandante da Marinha, Almirante Júlio
Soares de Moura Neto;
Comandante do Exército, General Enzo
Martins
Peri;
Senhor Comandante da Aeronáutica,
Brigadeiro
Juniti Saito;
Demais autoridades civis e oficiais
generais
presentes; senhores palestrantes; patrocinadores e apoiadores do Ciclo
de Seminários “Segurança Internacional: Perspectivas Brasileiras”;
Senhoras e Senhores,
Agradeço à FGV, ao Presidente, Carlos
Ivan
Simonsen Leal, por acolher este o evento.
Este seminário - “Segurança
Internacional:
Perspectivas Brasileiras”, consiste na reflexão sobre segurança
internacional.
É inédita por sua abrangência.
Contribuirá para a construção de uma
visão
sobre as grandes questões que envolvem a inserção do Brasil no mundo da
segurança e da defesa.
Agradeço a presença de nossos
parceiros
nesta empreitada: FAAP, FIESP, Comando do Exército e UnB.
Agradeço aos nossos patrocinadores:
Fundação
Cultural do Exército (FUNCEB), Fundação Atech e Odebrecht;
Antes de tudo, observo a relevância,
para
o estado brasileiro, de um exercício como o que ora se inicia.
Não há tradição de reflexão sobre o
assunto
no Brasil.
A associação entre a idéia de
segurança
e a de repressão política – na esteira das sequelas do regime militar
- tolheu a capacidade do estado e da academia de refletirem sobre o
tema.
Não pode haver políticas públicas
consistentes
sem massa crítica que embase solidamente as escolhas políticas inerentes
a sua condução.
Cabe-nos o papel de fomentar a
pesquisa
de temas de interesse do estado.
Mas, sempre, a partir de critérios de
pluralidade,
liberdade de expressão e excelência.
Devemos afastar, com coragem, os
perigos
da partidarização e dos dogmatismos político-ideológicos.
É de interesse primordial do estado
brasileiro,
por meio do Ministério da Defesa, aprofundar a reflexão sobre segurança
internacional.
É a forma de instruir a ação do MD no
seu
relacionamento com governos estrangeiros, organismos internacionais e na
tomada de posições referentes à política externa brasileira lato
sensu.
O daqui decorrer servirá de base - a
despeito
de seu caráter não oficial - para a elaboração do futuro livro branco de
defesa.
Servirá, também, para a revisão dos
instrumentos
ora existentes como a estratégia nacional de defesa e a política de
defesa
nacional.
O livro a ser editado ao final dos
cinco
seminários terá distribuição em todo o país.
Servirá de referência incontornável
para
um enorme número de estudantes e professores de graduação e
pós-graduação
interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre a inserção
internacional
de segurança do Brasil considerada a partir de uma perspectiva
brasileira.
Neste momento, cabe-me esboçar a
importância
para o Brasil de dois temas inter-relacionados:
- a perspectiva do MD sobre o sistema
internacional
de segurança e
- a relevância da política de defesa
como
instrumento de política externa (o que engloba a necessidade estreitar
a articulação entre o MD e o MRE em todos os níveis).
Sobre o sistema internacional de
segurança,
menciono o seu elemento central:
- a incerteza.
As imagens do plano internacional como
domínio hobbesiano, em que a anarquia entendida como ausência de
hierarquia entre unidades soberanas, conduziria, inevitavelmente à
recorrência
ao conflito, são em grande medida exageradas.
Não há como negar que a incerteza
sobre
a dinâmica do relacionamento entre os estados – considerados como os
atores
mais relevantes – induz à adoção por parte dos estadistas do princípio
da precaução.
Precaução que, dado o potencial
destrutivo
dos armamentos hoje existentes, sejam eles convencionais ou não, se
traduz
muitas vezes em posturas estratégicas dissuasórias – como no caso
brasileiro.
Eis o grande dilema enfrentado pelos
responsáveis
pelas políticas de defesa:
- projetar no futuro a força que, a um
só tempo, garanta capacidade dissuasória em contextos cambiantes e que
respalde os interesses internacionais do país, sem fomentar percepções
de agressão em outros estados.
Se assim não for, poderemos prejudicar
o relacionamento com as nações que se sentissem ameaçadas.
Esse dilema não se dá no vácuo.
Depende de uma complexa teia de
fatores
domésticos e internacionais que plasmarão o contexto em que as decisões
serão tomadas; passemos ao sistema internacional de segurança tal qual
ele se estrutura no presente e as suas implicações para uma potência
regional
como o Brasil; temos como eixo central do sistema os Estados Unidos da
América.
Superpotência militar incontrastável
que
mantém intacta sua política de pesados investimentos em defesa.
Os Estados Unidos da América aprofunda
a “dissemetria” - entendida esta como o aumento do diferencial de poder
militar em relação aos demais atores estatais e não estatais do sistema.
Ainda no plano das capacidades
militares,
há que se considerar a União Européia, a Rússia, a China, o Japão e a
Índia
como atores relevantes no campo da segurança internacional.
Nenhum desses atores poderá aspirar a
se
equiparar, militarmente, aos EUA no médio prazo.
Isso determina, nesse plano, a
permanência
da unipolaridade por, pelo menos, uma geração (2035).
Nota-se, contudo, que as capacidades
militares
representam apenas a moldura a ser preenchida pela estrutura social dos
relacionamentos entre os principais atores do sistema.
Pode-se inferir que um sistema
capitaneado
pelos EUA e pela União Européia teria um grau de convergência
civilizacional
bastante mais acentuado do que outro presidido pelos EUA e China.
Sabemos ainda que essa mencionada
“convergência”
não representa, em si mesma, garantia de maiores ou menores tensões
sistêmicas.
Temos que considerar a possibilidade
de
que a ascensão da china gere movimentos profundos de placas tectônicas,
sobretudo em função da forte implantação dos EUA na Ásia e o apoio
estadunidense
a Taiwan e ao Japão.
Além desse possível aumento da
conflitividade
interestatal, decorrente da eventual transição de um sistema unipolar
para
outro bipolar, temos outra questão.
Devemos abordar a temática dos ditos
conflitos
assimétricos.
Aqueles que envolvem estados e grupos
subnacionais
- terrorismos, guerrilhas, movimentos messiânicos, senhores da guerra,
movimentos separatistas, radicais de toda natureza, entre outro.
Muito tem-se falado sobre uma suposta
mudança
estrutural da natureza da guerra:
A transição do paradigma de Clausewitz
- o da racionalidade do ato de força capitaneado essencialmente por
estados
nacionais - para outro em que a irracionalidade da violência praticada
por grupos subnacionais solaparia a lógica suposta pelo general
prussiano.
Nesse contexto, os conflitos totais
entre
grandes potências estariam condenados a uma nota de pé de página na
história.
O mesmo se aplicaria a todo o aparato
de
defesa dos principais atores do sistema tal qual está estruturado nos
dias
de hoje.
De acordo com essa visão, os exércitos
nacionais deveriam abandonar o paradigma da guerra industrial –
apropriado
para conflitos interestatais.
Deveriam partir para a transformação
em
forças de contra-insurgência.
A forte ênfase seria em tarefas
desenvolvimentistas
e de nation-building.
Em suma, para vencer grupos
subnacionais
altamente violentos, os estados deveriam transformar suas forças armadas
em um misto de gendarmerias, forças de paz e agências de
desenvolvimento.
Esta seria a forma apropriada de
conquistar
corações e mentes das populações infiltradas por grupos insurgentes ou
daquelas assoladas pelas mazelas decorrentes de convulsões domésticas.
Não devemos desconsiderar a
importância
da flexibilidade na determinação de um projeto de forças.
No entanto, não faz sentido, do ponto
de
vista de um país relevante,em termos internacionais, como o Brasil,
adotar
prescrições de intelectuais do dito primeiro mundo que pregam esse tipo
de transformação estrutural das forças armadas.
Há um fato evidente:
Os países desenvolvidos não
modificaram
substancialmente suas políticas de defesa no sentido da negação do
paradigma
Clausewitz.
Por isso cabe salientar que o Brasil
não
pode abrir mão de garantir a sua própria defesa de maneira autônoma.
Por essa razão e pelos desafios que se
apresentam ao país tanto no que tange às suas vulnerabilidades
estratégicas,
à dimensão do patrimônio nacional a ser preservado (Amazônia, Pré-sal,
infraestrutura energética etc.) e às ambições brasileiras de exercer um
papel relevante na construção de um mundo mais justo e multipolar, o
Brasil
não pode, e sobretudo não deve, abrir mão de possuir forças armadas
capazes
de garantir o poder de dissuasão necessário à defesa de sua soberania e
ao avanço de seus interesses no plano estratégico global.
Feitas essas considerações sobre o
sistema
internacional de segurança e seus contornos genéricos, caberia
acrescentar
que o Brasil do futuro, um país cada vez mais importante no plano
mundial,
muito provavelmente não poderá se eximir de enfrentar situações em que
o choque de interesses contrapostos apresente-se de forma mais aguda do
que o ocorrido no passado recente; da mesma forma, a perspectiva de
degradação
ambiental generalizada, a escassez de água potável em escala global, o
aumento da saliência da preservação do meio ambiente como elemento do
discurso
securitário nos países desenvolvidos, a redução das reservas de
petróleo,
o aumento do nível dos oceanos, o aumento da viabilidade comercial da
exploração
de recursos naturais localizados no leito marinho, entre outros fatores,
podem contribuir para o aumento da conflitividade sistêmica.
Todos os fatores acima elencados fazem
com que o Brasil tenha necessidade premente de incrementar sua
capacidade
dissuasória, levando em conta o caráter eminentemente defensivo de nossa
política de defesa. O aumento dessa capacidade trará como corolário o
acréscimo
de nosso potencial para contribuir pontualmente com operações de paz,
garantir
assistência humanitária a outros países em situações de catástrofes
naturais
e de salvaguardar a vida humana no atlântico sul; isso sem falar no
aumento
das possibilidades de estabelecimento de parcerias industriais (e.g. no
âmbito do Conselho Sul-Americano de Defesa) e tecnológicas (e.g. França)
com nações amigas, sobretudo aquelas que se encontram em nosso entorno
estratégico imediato: a América do Sul.
Diante do exposto, não resta dúvida
das
significativas implicações internacionais do esperado aumento do
protagonismo
da política de defesa no contexto mais amplo das relações internacionais
do Brasil.
Por esse motivo, a boa articulação
entre
MD e Itamaraty adquire relevo transcendente, inclusive em projetos de
largo
espectro como o da conquista pelo Brasil de um assento permanente no
conselho
de segurança das Nações Unidas – conquista essa que dificilmente será
obtida apenas pela nossa diplomacia, por mais competente que ela seja,
sem que haja, entre outros, um incremento da estatura
político-estratégica
brasileira relativamente ao presente.
Ainda que a natureza mais aguerrida do
militar contraste com a natureza mais cautelosa do diplomata, é preciso
que o Brasil institucionalize canais formais de diálogo que permitam a
melhor sintonia possível entre a perspectiva internacional do MD e a do
Itamaraty.
Como vetores tradicionais da política
externa
dos estados, militares e diplomatas devem atuar harmonicamente em prol
dos interesses nacionais. Isso precisa dar-se não somente com base na
flexibilidade
dos mecanismos informais, mas também com a criação de estruturas formais
que permitam dar estabilidade e coerência sistêmica de longo prazo às
instâncias
de interlocução.
É preciso também que haja uma unidade
de
propósitos consubstanciada em conhecimento recíproco profundo e não em
desconhecimento e em estereótipos superficiais de parte a parte. Se Clausewitz
permanece atual, a distinção entre militares e diplomatas encontra-se
apenas
na forma e não na substância, uma vez que a missão de ambos é a defesa
dos interesses nacionais por intermédio da política entendida em sentido
lato.
Termino esta intervenção salientando o
caráter de política de estado da política de defesa, o que faz com que
esta deva estar acima de pequenezas corporativas, ciúmes institucionais,
fanatismos ideológicos e disputas político-eleitorais. Portanto, como
política
de estado que deve trabalhar em harmonia com a política externa, outra
política de estado crucial, não resta alternativa a não ser deixar
consignada
aqui a minha satisfação com a presença neste certame de dois
embaixadores
(meus caros Samuel e Patriota) que tantos esforços têm feito para
aproximar
MD e MRE, tarefa em que devemos avançar juntos em prol de um futuro
melhor
para o nosso amado país.
Muito obrigado.